Sexualidade na Maturidade: da menopausa ao envelhecimento
Trabalho com
mulheres na menopausa há mais de 20 anos e observo que um dos temas mais
sensíveis desse grupo é sexualidade.
O desequilíbrio hormonal tem como um dos seus sinais o ressecamento íntimo e
mudanças na libido, o que leva as mulheres a se sentirem inseguras com a sua
sexualidade, com medos referentes ao término de relacionamentos e até chegam a
pensar que encerraram sua vida sexual.
Isso se deve
também a um mito recorrente que diz que “a mulher ao chegar na menopausa não se
interessa mais por sexo” e outro que afirma que “a mulher ao chegar na
menopausa está no fim da linha”. Embora pareçam bobagens, o fato é que essas crenças limitantes são passadas de mãe
para filha, de geração em geração e mesmo nesses tempos modernos, continuam a
reverberar no inconsciente coletivo, contribuindo para que muitas se sintam
desmotivadas a viverem sua sexualidade.
Esses mitos
surgiram no final do século XXI e início do século XX, quando a idade média das
mulheres era em torno de 55 anos, ou seja, quando entravam na menopausa, cuja
média de idade é aos 52 anos, já estavam prestes a morrer. Hoje ganhamos quase
trinta anos de vida e uma mulher cinquentona, atualmente, está no auge de sua vida.
O fato da
nossa sociedade ocidental valorizar a beleza, juventude e fertilidade,
contribui para o fortalecimento desses tabus e à medida que a mulher vai
envelhecendo, torna-se invisível. Nos países em que o envelhecimento é
respeitado, isso não ocorre e até os sinais do desequilíbrio hormonal são bem
mais amenos. Um exemplo clássico é o que se refere às mulheres japonesas;
apenas cinco porcento delas sentem os famosos calorões da menopausa, enquanto
que oitenta e cinco por cento das ocidentais sofrem com esse desconforto.
A
sexualidade ativa é um importante pilar da qualidade de vida e o orgasmo na
maturidade contribui para a melhora da saúde pélvica e uterina, além de
permitir uma expansão da consciência e do prazer. Com o passar dos anos, os
problemas relacionados à sexualidade tendem a piorar. Há uma concepção
generalizada que, no processo de envelhecimento, a sexualidade perde seu lugar.
É como se a sexualidade fosse apenas importante da puberdade à vida adulta e
depois deixasse de ser necessária.
Estudiosos
da longevidade afirmam que as expressões de afeto, carinho, sensação de
aconchego, capacidade de amar e o desejo por intimidade não acabam em nenhuma
idade, podendo e devendo serem realizados por toda a vida, uma vez que são
manifestações essenciais ao bem-estar, autoestima e realização pessoal.
A queixa das
mulheres mais velhas com relação à baixa da libido ocorre, também, devido a outros
fatores como condição social e estilo de vida. Alimentação saudável, qualidade
do sono e a prática de atividade física são aspectos essenciais para a saúde e sexualidade.
Depressão, ausência de novos projetos, desgastes no relacionamento conjugal e
uma visão estereotipada da sexualidade na maturidade, contribuem para a
desvalorização dos prazeres sexuais desta fase.
É importante
lembrar que as mulheres idosas de hoje, nascidas nas décadas de 1950 e de 1960,
em sua grande maioria, foram educadas de forma repressora e machista, quando o
sexo era um tema ignorado nas famílias e a mulher tinha obrigação de
“satisfazer seus maridos”. Uma outra
parte delas, desafiou o sistema vigente e as tradições patriarcais, religiosas
e sócio culturais e viveu sua sexualidade de forma livre, rompendo com os
dogmas estabelecidos. Mas e agora, aos 60, 70 anos e mais, como essas mulheres
estão vivendo sua sexualidade?
O fato de
muitas delas nunca terem tido orgasmos ou terem sofrido abusos sexuais,
contribuem para o desinteresse sexual, pois agora não “precisam” agradar aos
maridos e optam pelo celibato, sem atividade sexual. Conseguir parceiros
sexuais, no caso das heterossexuais, não é algo simples, pois os homens da
mesma geração preferem as mulheres mais jovens. Isso faz parte do etarismo
vigente em nossa sociedade.
O que
acontece com os idosos, em termos de sexualidade, é um reflexo da sociedade
brasileira, onde a educação sexual nas famílias, nas escolas e na população em
geral, é incipiente e deixa muito a desejar. Não há uma explicação clara para
crianças e jovens sobre a fisiologia reprodutiva humana. As meninas e mulheres,
em sua maioria, desconhecem os ciclos femininos, o significado da menarca, a
importância do uso de preservativos e os métodos de controle contraceptivo.
Para os do sexo masculino é ainda pior. A pornografia está acessível nas redes sociais,
o que agrava ainda mais a falta de educação sexual e a perda do verdadeiro
significado do sexo, como um momento de sensibilidade, delicadeza e prazer, permanecendo
ao longo da vida, inclusive na maturidade.
É essencial
mudar essa visão, o que se faz a partir de políticas públicas educacionais que
levem à conscientização da população, melhorando os conhecimentos sobre
sexualidade dos idosos e de todas as faixas etárias e clareando seus benefícios
para a vida do ser humano. Os espaços para essas reflexões podem ser nas
escolas, centros de saúde e assistência social, locais de acolhimento de idosos,
nas mídias sociais, entre outros.
Na vida
particular, hábitos individuais e de casais também podem ser desenvolvidos com
o objetivo de melhorar a libido, como os rituais de auto prazer. Agendar um
horário semanal, no mínimo, para garantir o prazer sexual individual ou de
casais, em um ambiente agradável, com música, aromas de óleos essenciais
afrodisíacos, massagem erótica e vibradores, contribuem para a manutenção do
prazer sexual.
E cabe a
cada um de nós, que estamos envelhecendo, rever nossas crenças limitantes,
permitindo que o autoconhecimento e a sexualidade estejam presentes até o
último dia de nossas vidas.
Livia Penna Firme Rodrigues
Brasília, 27/02/2024

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