quinta-feira, março 14, 2024

Sexualidade na Maturidade: da menopausa ao envelhecimento

 

Sexualidade na Maturidade:  da menopausa ao envelhecimento

 

Trabalho com mulheres na menopausa há mais de 20 anos e observo que um dos temas mais sensíveis desse grupo é sexualidade. O desequilíbrio hormonal tem como um dos seus sinais o ressecamento íntimo e mudanças na libido, o que leva as mulheres a se sentirem inseguras com a sua sexualidade, com medos referentes ao término de relacionamentos e até chegam a pensar que encerraram sua vida sexual.

Isso se deve também a um mito recorrente que diz que “a mulher ao chegar na menopausa não se interessa mais por sexo” e outro que afirma que “a mulher ao chegar na menopausa está no fim da linha”. Embora pareçam bobagens, o fato é que essas crenças limitantes são passadas de mãe para filha, de geração em geração e mesmo nesses tempos modernos, continuam a reverberar no inconsciente coletivo, contribuindo para que muitas se sintam desmotivadas a viverem sua sexualidade. 

Esses mitos surgiram no final do século XXI e início do século XX, quando a idade média das mulheres era em torno de 55 anos, ou seja, quando entravam na menopausa, cuja média de idade é aos 52 anos, já estavam prestes a morrer. Hoje ganhamos quase trinta anos de vida e uma mulher cinquentona, atualmente, está no auge de sua vida.

O fato da nossa sociedade ocidental valorizar a beleza, juventude e fertilidade, contribui para o fortalecimento desses tabus e à medida que a mulher vai envelhecendo, torna-se invisível. Nos países em que o envelhecimento é respeitado, isso não ocorre e até os sinais do desequilíbrio hormonal são bem mais amenos. Um exemplo clássico é o que se refere às mulheres japonesas; apenas cinco porcento delas sentem os famosos calorões da menopausa, enquanto que oitenta e cinco por cento das ocidentais sofrem com esse desconforto.

A sexualidade ativa é um importante pilar da qualidade de vida e o orgasmo na maturidade contribui para a melhora da saúde pélvica e uterina, além de permitir uma expansão da consciência e do prazer. Com o passar dos anos, os problemas relacionados à sexualidade tendem a piorar. Há uma concepção generalizada que, no processo de envelhecimento, a sexualidade perde seu lugar. É como se a sexualidade fosse apenas importante da puberdade à vida adulta e depois deixasse de ser necessária.

Estudiosos da longevidade afirmam que as expressões de afeto, carinho, sensação de aconchego, capacidade de amar e o desejo por intimidade não acabam em nenhuma idade, podendo e devendo serem realizados por toda a vida, uma vez que são manifestações essenciais ao bem-estar, autoestima e realização pessoal.

A queixa das mulheres mais velhas com relação à baixa da libido ocorre, também, devido a outros fatores como condição social e estilo de vida. Alimentação saudável, qualidade do sono e a prática de atividade física são aspectos essenciais para a saúde e sexualidade. Depressão, ausência de novos projetos, desgastes no relacionamento conjugal e uma visão estereotipada da sexualidade na maturidade, contribuem para a desvalorização dos prazeres sexuais desta fase.

É importante lembrar que as mulheres idosas de hoje, nascidas nas décadas de 1950 e de 1960, em sua grande maioria, foram educadas de forma repressora e machista, quando o sexo era um tema ignorado nas famílias e a mulher tinha obrigação de “satisfazer seus maridos”.  Uma outra parte delas, desafiou o sistema vigente e as tradições patriarcais, religiosas e sócio culturais e viveu sua sexualidade de forma livre, rompendo com os dogmas estabelecidos. Mas e agora, aos 60, 70 anos e mais, como essas mulheres estão vivendo sua sexualidade?

O fato de muitas delas nunca terem tido orgasmos ou terem sofrido abusos sexuais, contribuem para o desinteresse sexual, pois agora não “precisam” agradar aos maridos e optam pelo celibato, sem atividade sexual. Conseguir parceiros sexuais, no caso das heterossexuais, não é algo simples, pois os homens da mesma geração preferem as mulheres mais jovens. Isso faz parte do etarismo vigente em nossa sociedade.

O que acontece com os idosos, em termos de sexualidade, é um reflexo da sociedade brasileira, onde a educação sexual nas famílias, nas escolas e na população em geral, é incipiente e deixa muito a desejar. Não há uma explicação clara para crianças e jovens sobre a fisiologia reprodutiva humana. As meninas e mulheres, em sua maioria, desconhecem os ciclos femininos, o significado da menarca, a importância do uso de preservativos e os métodos de controle contraceptivo. Para os do sexo masculino é ainda pior.  A pornografia está acessível nas redes sociais, o que agrava ainda mais a falta de educação sexual e a perda do verdadeiro significado do sexo, como um momento de sensibilidade, delicadeza e prazer, permanecendo ao longo da vida, inclusive na maturidade.

É essencial mudar essa visão, o que se faz a partir de políticas públicas educacionais que levem à conscientização da população, melhorando os conhecimentos sobre sexualidade dos idosos e de todas as faixas etárias e clareando seus benefícios para a vida do ser humano. Os espaços para essas reflexões podem ser nas escolas, centros de saúde e assistência social, locais de acolhimento de idosos, nas mídias sociais, entre outros.

Na vida particular, hábitos individuais e de casais também podem ser desenvolvidos com o objetivo de melhorar a libido, como os rituais de auto prazer. Agendar um horário semanal, no mínimo, para garantir o prazer sexual individual ou de casais, em um ambiente agradável, com música, aromas de óleos essenciais afrodisíacos, massagem erótica e vibradores, contribuem para a manutenção do prazer sexual.

E cabe a cada um de nós, que estamos envelhecendo, rever nossas crenças limitantes, permitindo que o autoconhecimento e a sexualidade estejam presentes até o último dia de nossas vidas.

 

Livia Penna Firme Rodrigues

Brasília, 27/02/2024

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