quarta-feira, janeiro 20, 2016

ENFRENTANDO O CALORÃO QUE ANTECEDE A MENOPAUSA


O corpo começa a dar seus sinais. São sintomas e mais sintomas que podem acontecer ou não, na fase da perimenopausa, ou seja, a fase em que os sintomas começam a surgir, devido à baixa hormonal.
Esses sintomas estão relacionados à estória de cada mulher, do seu corpo e da sua essência. Sim, essência, que é o que temos de mais profundo, que não acaba nunca. É assim que eu entendo a alma, o espírito, como a nossa essência. E como é importante estar pertinho dela, a parte mais íntima de nosso ser. É onde se encontram nossos segredos, as respostas para os conflitos, a cura para as doenças, o estímulo para o amor, a força da vida.
A busca pela essência verdadeira deveria nos acompanhar por toda a vida; faz parte do desenvolvimento espiritual do Ser. Ao chegar à menopausa, essa busca se intensifica, sentimos que já não é mais possível adiar ou ignorar esse lado. O próprio corpo começa a dar sinais de que uma forte transformação interior é necessária. Mestres e Xamãs que trabalham com práticas indígenas desenvolvidas pelas tribos nativas há seis mil anos, interpretam as ondas de calor que surgem na perimenopausa, como o fogo da transformação, o fogo interior que chega para queimar velhos padrões de comportamento. O fogo que faz renascer uma nova mulher, consciente de sua maturidade, repleta de poder. As ondas de calor são interpretadas como uma purificação. Uma delas, Lynn Andrews, em seu livro intitulado A mulher do limiar de dois mundos: a jornada espiritual da menopausa (São Paulo: Ágora, 1995), diz o seguinte:

“Fazemos troça de nossas ondas de calor na tentativa de torná-las menos assustadoras. Não fazemos ideia de que tais sintomas de desequilíbrio hormonal são também o acender de um fogo interior que prepara a mulher para uma fase incrivelmente poderosa de sua vida. Ao nos aproximarmos desse novo limiar, foi-me ensinado que a alquimia do calor está presente para purificar o corpo e o espírito dos entulhos negativos. Os ataques súbitos de calor precisam ser acolhidos em vez de combatidos.”

Nas sociedades ocidentais, o aspecto espiritual é deixado em segundo plano, embora esteja presente, caminhe junto e seja inseparável dos outros aspectos da vida. As tarefas do dia-a-dia, a correria, o consumo, a preocupação em ganhar dinheiro, deixam as pessoas completamente ocupadas e identificadas com os papéis que desempenham na sociedade em que vivem, tornando-as  desconectadas da sua Essência.
Na fase da menopausa, ocorre uma mudança importante que faz com que a força espiritual desabroche ou se intensifique. Uma necessidade interna de cuidar do lado espiritual surge e é ajudada pela revisão da vida, que, necessariamente, a idade traz. Passamos a reconhecer as ilusões, o que é verdadeiro e o que é falso. A jornada se aprofunda naquelas que cultivaram esse aspecto por toda a vida e passa a provocar cotidianamente aquelas que nunca deram espaço e tempo para isso. Acontece, então, um processo de iniciação, que não é desagradável. Ao contrário, constatar a vida espiritual presente, latente, conduzindo a jornada, traz alegria, paz, entrega e aceitação. Gratidão por ter chegado até aqui.
Mais uma vez cito Lynn Andrews:

“Essa fase de mudanças é um período de liberação em que a mulher começa a colher os frutos de tudo o que ela aprendeu e realizou. É o tempo em que sua vida espiritual, por fim, começa verdadeiramente. A menopausa é um processo de renascimento do qual a mulher emerge com novas responsabilidades, novos espelhos e novo poder. No cerne da menopausa está a descoberta por cada mulher de seu próprio mistério pessoal, uma iluminação de sua relação particular com a totalidade de seu processo de vida.”

A negação dessa manifestação pode causar doenças, acidentes, acontecimentos fortes, que necessariamente conduzirão a uma reflexão espiritual. Naturalmente, é difícil lidar com esse calor em nossa vida cotidiana, com suores repentinos intensos. Quem sabe a consciência desse fato traga uma nova compreensão sobre o sintoma das ondas de calor, levando-nos a ter mais tolerância com elas.
Durante a minha perimenopausa, em momentos em que estava sendo atingida por essas ondas escaldantes, com a ajuda de um leque, mentalizava a transformação, a purificação, a mesma que acontece quando jogamos em uma fogueira papel velho, fotos amareladas, diários antigos... A Natureza faz o mesmo conosco, numa tentativa de derreter antigos padrões, modificar, transformar em cinzas o que não precisamos mais, para justamente podermos renascer das cinzas, como Fênix. Renascer para outra vida, agora muito mais espiritual.

E como cultivar a espiritualidade?

Certa vez, tive contato com uma experiente terapeuta que disse uma frase que nunca esqueci: “O sagrado começa quando acordamos e termina quando acordamos...”
Não há um limiar, tudo aquilo que praticamos diariamente é espiritual. Acredito na visão holística que considera que os aspectos físico, mental, emocional e espiritual não são inseparáveis, estão presentes em todas as coisas e acontecem simultaneamente. É a complexidade, que interliga todos os aspectos da vida, que lembra que somos parte do Todo, do Cosmos, que coloca a incerteza, os altos e baixos, o inacabado, como fatores comuns do cotidiano.
Estar consciente disso, estar totalmente presente em cada ação realizada, agindo da forma que o seu Ser Interior acredita, isso é viver espiritualmente. E cabe a cada uma ir tecendo essa grande rede, a qual todas pertencemos, sabendo que não estamos sós.
Um fim de semana em contato com a Natureza é um excelente meio de conexão espiritual. A contemplação do nascer do Sol, de uma noite de lua cheia, ouvir o barulho de uma cachoeira, caminhar em lugares bonitos, observar quaresmeiras ou ipês floridos, tomar banhos de mar, de rio... São infinitas as possibilidades oferecidas que nos colocam perto da Mãe Terra e do Pai Céu.
A partir deles, entramos em contato com nossa natureza interior, encontramos nossa essência e sentimos o sagrado dentro de nós.  E em troca receberemos energia, alegria, vontade de viver!
A meditação diária é um exercício essencial para permanecer centrada e em contato com o seu Ser Interior. A partir dela, sentimos aquele fio que nos conecta com o Céu e a Terra, que nos coloca em contato com a sabedoria e a paz internas e com o momento presente.
Várias situações cotidianas nos fazem entrar em meditação, como encontrar os amigos, fazer um artesanato, caminhar, preparar uma comida gostosa, entre tantas outras. Cada uma de nós tem suas crenças e sua forma de lidar com sua espiritualidade. O importante é cultivar esse aspecto, criar espaço para que ele esteja presente em nossa vida e reconhecer que a menopausa expande este canal dentro de nós.
No meio dos calores, certa época, me sentia pressionada pelo cotidiano e surgiu uma oportunidade de fazer um retiro espiritual. Percebi a importância de “dar um tempo”, de olhar as coisas de fora e ver que tudo continua acontecendo, quer eu esteja ou não fazendo alguma coisa. O mundo não vai parar porque eu parei, mas meu corpo e alma agradecem.


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