ENFRENTANDO O CALORÃO QUE ANTECEDE A MENOPAUSA
O
corpo começa a dar seus sinais. São sintomas e mais sintomas que podem
acontecer ou não, na fase da perimenopausa, ou seja, a fase em que os sintomas
começam a surgir, devido à baixa hormonal.
Esses
sintomas estão relacionados à estória de cada mulher, do seu corpo e da sua
essência. Sim, essência, que é o que temos de mais profundo, que não acaba nunca.
É assim que eu entendo a alma, o espírito, como a nossa essência. E como é
importante estar pertinho dela, a parte mais íntima de nosso ser. É onde se
encontram nossos segredos, as respostas para os conflitos, a cura para as
doenças, o estímulo para o amor, a força da vida.
A
busca pela essência verdadeira deveria nos acompanhar por toda a vida; faz
parte do desenvolvimento espiritual do Ser. Ao chegar à menopausa, essa busca
se intensifica, sentimos que já não é mais possível adiar ou ignorar esse lado.
O próprio corpo começa a dar sinais de que uma forte transformação interior é
necessária. Mestres e Xamãs que trabalham
com práticas indígenas desenvolvidas pelas tribos nativas há seis mil anos, interpretam
as ondas de calor que surgem na perimenopausa, como o fogo da transformação, o
fogo interior que chega para queimar velhos padrões de comportamento. O fogo
que faz renascer uma nova mulher, consciente de sua maturidade, repleta de
poder. As ondas de calor são interpretadas como uma purificação. Uma delas, Lynn Andrews, em seu livro
intitulado A mulher do limiar de dois
mundos: a jornada espiritual da menopausa (São Paulo: Ágora, 1995),
diz o seguinte:
“Fazemos troça de nossas ondas de calor na tentativa de torná-las
menos assustadoras. Não fazemos ideia de que tais sintomas de desequilíbrio
hormonal são também o acender de um fogo interior que prepara a mulher para uma
fase incrivelmente poderosa de sua vida. Ao nos aproximarmos desse novo limiar,
foi-me ensinado que a alquimia do calor está presente para purificar o corpo e
o espírito dos entulhos negativos. Os ataques súbitos de calor precisam ser
acolhidos em vez de combatidos.”
Nas
sociedades ocidentais, o aspecto espiritual é deixado em segundo plano, embora
esteja presente, caminhe junto e seja inseparável dos outros aspectos da vida.
As tarefas do dia-a-dia, a correria, o consumo, a preocupação em ganhar
dinheiro, deixam as pessoas completamente ocupadas e identificadas com os
papéis que desempenham na sociedade em que vivem, tornando-as desconectadas da sua Essência.
Na
fase da menopausa, ocorre uma mudança importante que faz com que a força
espiritual desabroche ou se intensifique. Uma necessidade interna de cuidar do
lado espiritual surge e é ajudada pela revisão da vida, que, necessariamente, a
idade traz. Passamos a reconhecer as ilusões, o que é verdadeiro e o que é
falso. A jornada se aprofunda naquelas que cultivaram esse aspecto por toda a
vida e passa a provocar cotidianamente aquelas que nunca deram espaço e tempo
para isso. Acontece, então, um processo de iniciação, que não é desagradável.
Ao contrário, constatar a vida espiritual presente, latente, conduzindo a
jornada, traz alegria, paz, entrega e aceitação. Gratidão por ter chegado até
aqui.
Mais
uma vez cito Lynn Andrews:
“Essa fase de mudanças é um período de liberação em que a
mulher começa a colher os frutos de tudo o que ela aprendeu e realizou. É o
tempo em que sua vida espiritual, por fim, começa verdadeiramente. A menopausa
é um processo de renascimento do qual a mulher emerge com novas
responsabilidades, novos espelhos e novo poder. No cerne da menopausa está a
descoberta por cada mulher de seu próprio mistério pessoal, uma iluminação de
sua relação particular com a totalidade de seu processo de vida.”
A
negação dessa manifestação pode causar doenças, acidentes, acontecimentos fortes,
que necessariamente conduzirão a uma reflexão espiritual. Naturalmente, é
difícil lidar com esse calor em nossa vida cotidiana, com suores repentinos
intensos. Quem sabe a consciência desse fato traga uma nova compreensão sobre o
sintoma das ondas de calor, levando-nos a ter mais tolerância com elas.
Durante
a minha perimenopausa, em momentos em que estava sendo atingida por essas ondas
escaldantes, com a ajuda de um leque, mentalizava a transformação, a purificação,
a mesma que acontece quando jogamos em uma fogueira papel velho, fotos
amareladas, diários antigos... A Natureza faz o mesmo conosco, numa tentativa
de derreter antigos padrões, modificar, transformar em cinzas o que não
precisamos mais, para justamente podermos renascer das cinzas, como Fênix.
Renascer para outra vida, agora muito mais espiritual.
E
como cultivar a espiritualidade?
Certa
vez, tive contato com uma experiente terapeuta que disse uma frase que nunca esqueci:
“O sagrado começa quando acordamos e termina quando acordamos...”
Não há
um limiar, tudo aquilo que praticamos diariamente é espiritual. Acredito na
visão holística que considera que os aspectos físico, mental, emocional e
espiritual não são inseparáveis, estão presentes em todas as coisas e acontecem
simultaneamente. É a complexidade, que interliga todos os aspectos da vida, que
lembra que somos parte do Todo, do Cosmos, que coloca a incerteza, os altos e
baixos, o inacabado, como fatores comuns do cotidiano.
Estar consciente disso,
estar totalmente presente em cada ação realizada, agindo da forma que o seu Ser
Interior acredita, isso é viver espiritualmente. E cabe a cada uma ir tecendo
essa grande rede, a qual todas pertencemos, sabendo que não estamos sós.
Um fim de semana em contato
com a Natureza é um excelente meio de conexão espiritual. A contemplação do
nascer do Sol, de uma noite de lua cheia, ouvir o barulho de uma cachoeira,
caminhar em lugares bonitos, observar quaresmeiras ou ipês floridos, tomar
banhos de mar, de rio... São infinitas as possibilidades oferecidas que nos
colocam perto da Mãe Terra e do Pai Céu.
A partir deles, entramos em
contato com nossa natureza interior, encontramos nossa essência e sentimos o
sagrado dentro de nós. E em troca
receberemos energia, alegria, vontade de viver!
A meditação diária é um
exercício essencial para permanecer centrada e em contato com o seu Ser
Interior. A partir dela, sentimos aquele fio que nos conecta com o Céu e a
Terra, que nos coloca em contato com a sabedoria e a paz internas e com o
momento presente.
Várias situações cotidianas
nos fazem entrar em meditação, como encontrar os amigos, fazer um artesanato, caminhar,
preparar uma comida gostosa, entre tantas outras. Cada uma de nós tem suas
crenças e sua forma de lidar com sua espiritualidade. O importante é cultivar
esse aspecto, criar espaço para que ele esteja presente em nossa vida e
reconhecer que a menopausa expande este canal dentro de nós.
No meio dos calores, certa
época, me sentia pressionada pelo cotidiano e surgiu uma oportunidade de fazer
um retiro espiritual. Percebi a importância de “dar um tempo”, de olhar as
coisas de fora e ver que tudo continua acontecendo, quer eu esteja ou não
fazendo alguma coisa. O mundo não vai parar porque eu parei, mas meu corpo e
alma agradecem.
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