Há vinte anos trabalho com Menopausa
Nessa época
(2004), falar “menopausa” era quase um palavrão. As mulheres evitavam comentar
sobre essa fase do ciclo feminino ou até ignoravam completamente. Algumas
amigas diziam que seria muita coragem trabalhar com esse tema, “credo, nossa,
que horror”, seria melhor conversar sobre tantra, com certeza teria muito mais
audiência.
Verdade.
Confesso que nesses vinte anos conversei com muitas mulheres; fui uma pioneira
no Brasil ao tocar nesse tema abertamente e até adotei uma palavra, de origem
belga, para amenizar o impacto causada pela “menopausa” e comecei a usar
“Maturescência”, que foi bem aceita entre as mulheres maturescentes mais
próximas. Defini Maturescência como a saída da vida reprodutiva, que inclui a
perimenopausa, menopausa e a pós menopausa.
Trabalhar
com as maturescentes é muito estimulante, cada mulher que eu encontro é um
universo único, cada uma traz dentro de si muita sabedoria para compartilhar. As
mulheres que chegam realmente estão em outro patamar de consciência sobre essa
travessia desafiadora da vida, que é a menopausa. Por outro lado, apesar de
minha dedicação, nunca “viralizei” na internet; tenho um canal do You tube com
uma audiência modesta, o meu instagram estacionou em quatro mil seguidoras,
tenho um curso gravado no Hotmart com poucos acessos e dois livros publicados
que são bons, as mulheres gostam, mas nem por isso se tornaram best sellers.
Mesmo assim, continuei.
Hoje percebo
que não tenho o carisma das youtubers que bombam na internet, além de minha
verba para investir em mídias sociais ser limitada. Atualmente, existem profissionais
com milhares de seguidoras trabalhando com menopausa, que, com certeza,
investem alto. E esse nicho não é fácil, pois ainda predominam os mitos
relacionados à menopausa em uma sociedade que valoriza demais a juventude,
beleza e fertilidade.
Quando eu trabalhava como doula e fazia
preparação para o parto, realmente era bem mais fácil, as mulheres chegavam.
Mesmo porque as gestantes têm apenas nove meses para decidir sobre suas
escolhas. Se querem se preparar para um parto humanizado, se vão direto para
uma cesárea de data marcada, se vai ser parto domiciliar ou hospitalar, se vai
ter ou não uma doula acompanhando, se vai ser na água, se vai haver filmagem,
se o pai ou outro acompanhante vai estar presente ou não. Pouco tempo, que
passa rápido, para decidir vários aspectos, de ordem prática e emocional.
Menopausa é
bem mais complexo. A perimenopausa, que é o período quando se iniciam os
primeiros desconfortos do desequilíbrio hormonal, pode durar cinco, dez, doze e
até quinze anos para chegar à última menstruação, conhecida como menopausa
propriamente dita. E são várias fases que
acontecem nesse período, com sinais diferentes. Até lá pode surgir insônia, baixa
de libido, depressão, entre outros mais de cinquenta sinais que fazem com que a
mulher, desinformada, procure outros especialistas, que vão prescrever remédios,
inclusive os de faixa preta. E uma enorme solidão invade a mulherada que não
sabe se o que está acontecendo é envelhecimento ou loucura; “meu deus quero
minha vida de volta”, “será que meu casamento vai acabar” são frases que
costumo ouvir, constantemente.
Até ela se
tocar que pode buscar ajuda, que existem inúmeras soluções para cuidar do
desequilíbrio hormonal, que as rodas de mulheres nessa fase ajudam muito, já
podem ter passado mais de dois ou três anos. E algumas mulheres acham que “vai
passar” e não buscam nenhum tipo de apoio. O serviço de saúde publica no
Brasil, ainda não está preparado para acolher essa fase da mulher, com
programas específicos e profissionais especializados. E para completar, nesse momento,
a mulher quer mudar tudo, quer uma nova vida, não suporta mais seu cotidiano de
anos de serviço doméstico, conjugal e familiar, o que causa inúmeros
transtornos e até violência doméstica.
Agora, vinte
anos depois, muita coisa mudou. A menopausa saiu da invisibilidade, muitas
famosas começaram levantar esse tema, as mulheres descobriram que estar na
faixa dos cinquenta anos significa um renascimento. Vamos viver, nada de
reclamar que está ficando velha. O instagram tem muitas ofertas de
especialistas em menopausa, com mil soluções disponíveis; enfim, estamos
avançando, embora os mitos relacionados à essa fase da vida feminina continuem
a invadir a cabeça da mulherada. Precisamos de mais tempo para dissolver isso,
pois mudar paradigmas não é fácil.
Acessar informação
de qualidade, rever o estilo de vida e investir em autoconhecimento ainda são
os melhores caminhos para atravessar esse ciclo feminino, com menos
desconfortos e com mais alegria para descobrir um mundo novo que se tem pela
frente.
Fevereiro de 2024
LiviaPenna Firme Rodrigues

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