MATURESCÊNCIA: O ENTARDECER DA VIDA
Maturescência, que palavra linda! A primeira vez em que a vi foi no livro A segunda vida das mulheres, de Christiane Collange, uma escritora francesa que dedicou sua vida ao trabalho com o feminino. Segundo ela, esse é um novo termo, inventado em Genebra, “para designar o período dos 40 aos 65 anos, as crises e mudanças que ocorrem durante o envelhecimento”. Desde que conheci e me apaixonei por essa palavra, há vinte anos, a incorporei em meu trabalho com as mulheres maduras e a redefini, conforme pode ser visto no próximo parágrafo.
Maturescência significa a saída da vida reprodutiva feminina, para uma vida mais ativa e produtiva, em que a mulher vai parir a si mesma e que inclui a perimenopausa, menopausa e pós menopausa.
Se inicia na perimenopausa, com as primeiras transformações menstruais; alcança a última menstruação, a menopausa e vai além, na pós menopausa, até a nossa passagem, para outro plano, com a morte de nosso corpo físico.
A crise da Maturescência
Vivemos em uma sociedade que valoriza a beleza, a juventude e a fertilidade. É natural que, ao chegar à meia idade, venha uma crise, como aconteceu na adolescência. Na adolescência a chegada dos hormônios sexuais são responsáveis pelas transformações físicas, mentais, emocionais e espirituais dos adolescentes, na maturescência, ocorre o mesmo, com o desequilíbrio e diminuição desses hormônios.
A Natureza pede transformações para continuar em evolução. É necessário deixar coisas para trás e incorporar outras, o que nem sempre é feito sem sofrimento. É aí que surge a crise. E crise leva ao crescimento. Crescer dói, mas traz também novas oportunidades. Na maturescência essa crise vai permitir sermos quem verdadeiramente somos.
As alterações hormonais fazem parte do cotidiano feminino, desde a primeira menstruação. Ovulações, tensões pré-menstruais, cólicas, gestações, lactações, períodos férteis ou não, abortos, espontâneos ou não, com libido ou sem, são episódios comuns, corriqueiros, diários, regados pelos hormônios sexuais, o estrogênio, a progesterona e a testosterona. Eles acompanham e flutuam durante a vida da mulher, em seu ciclo reprodutivo, que podemos chamar também de ciclo do sangue.
Até que chega um momento em que os óvulos diminuem, a produção dos hormônios se desequilibra, torna-se irregular, as menstruações deixam de ser o que foram por décadas e a mulher sente-se confusa e atônita com tantas transformações. Ela entrou na perimenopausa e os sintomas, desconfortos, sinais, que vão se alternando por anos a fio, culminam com uma última menstruação, que irá se revelar doze meses depois.
A menopausa se instalou, podemos dizer que ela é o portal da vida madura, quando se inicia uma nova fase. Tudo isso é simples e natural, mas como a própria vida, provoca altos e baixos, às vezes difíceis de administrar. Maturescência inclui maturidade, menopausa, envelhecimento... Vem tudo junto! Isso contribui para a crise da maturidade a que estamos todas sujeitas.
Maturidade significa ter cumprido etapas naturais da vida. Vários ciclos se abriram e se fecharam e cada uma de nós tem muitas estórias para contar. Os desequilíbrios hormonais provocam mudanças fisiológicas, sexuais e afetivas e assim como na adolescência, na maturescência essas mudanças voltam a surgir, relacionadas, agora, ao processo do amadurecimento.
O aspecto sagrado da maturescência, responsável pelos presentes que ela nos traz e que são aumento da criatividade, intuição aguçada e sabedoria, precisa ser resgatado e reconhecido. Poderemos sentir insegurança e medo do envelhecimento, atravessar uma crise existencial, mas nunca acreditar que a partir de agora não há mais razões para viver plenamente. Temos muita vida pela frente.
Atualmente, quando a menopausa se instala, podemos estar na metade ou termos vivido apenas um terço de nossas vidas. Com o aumento da sobrevida do último século, ganhamos quase trinta anos após a menopausa. Até o fim do século IX e início do século XX, as mulheres viviam em torno de 55 anos. Como a idade média da menopausa para a mulher brasileira varia dos 49 aos 52 anos, pode-se afirmar que sim, naquela época, ao chegar na maturescência, a mulher estava prestes a morrer. Isso mudou completamente e hoje, aos 50 anos, a mulher está no auge de sua vida.
Mesmo assim, a aceitação da maturidade, para muitas de nós, mulheres, é um desafio. À medida que avançamos nesse processo, que é longo e contém várias etapas, nos tornamos vítimas da invisibilidade e do etarismo. Atravessamos as crenças limitantes relacionadas à menopausa e entramos nos preconceitos relacionados à velhice. Há muito para avançar nesse sentido, no Brasil. Mas cada uma de nós pode contribuir para a mudança de mentalidade vigente, assumindo uma nova postura e vivendo com consciência essa etapa da vida.
Maturescer requer viver no aqui e agora. As lembranças do passado, com as experiências vividas, espelham a pessoa que fomos naquela época e que ficou para trás. Claro que se fôssemos revivê-las novamente, faríamos diferente. Portanto, não vamos carregar culpas e arrependimentos porque isso são como malas pesadas que não queremos largar pelo caminho. Aceitar e ressignificar o que passou traz muita libertação, nos deixa leves e disponíveis para viver o presente.
Temos sonhos a serem realizados. Se você não acredita nisso, experimenta fazer uma lista deles. Recentemente, acompanhando um terapeuta que sugeriu essa atividade, fiquei bem surpresa com a quantidade de sonhos que eu tenho e que ainda não foram realizados. Cada um deles pode se tornar um projeto de vida. Muitos deles talvez estejam distantes e não haja mais tempo disponível nessa vida para concretizá-los. Não importa, eles estão aí e são suficientes para me trazerem motivação para viver.
Manter a chama da vida acesa, como novos projetos para o presente e para o futuro, é essencial. Nunca deixar a sombra de que “não temos mais nada para ser feito”, ou que “o nosso tempo já passou”, se aproxime. Viver cada dia plenamente e como diz Estés, em seu livro Ciranda das Mulheres Sábias: “ser jovem enquanto velha e ser velha enquanto jovem”.
Referências:
COLLANGE, C. A segunda vida das mulheres.Barueri: Sá Ed., 2005.
ESTES, C.P. A Ciranda das mulheres sábias.Rio de Janeiro, Ed. Rocco,, 2007.
Foto de um Circulo de Mulheres Maturescentes, realizado em Alto Paraíso de Goiás, em 2022.

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